Eu não vou em futebóis

Quantas vezes não ouvimos dizer… “eu cá não vou em futebóis”, como quem diz “ai eu cá estou muito acima disso”, dessa coisa que move multidões e transforma simples cidadãos em turba, como quem se demarca dessa ‘plebe’ e se isola no pedestal das elites.

Esta coisa dos rótulos que castram a expressão da individualidade é mais uma daquelas coisas que me atormenta. Sim… sou uma alma constantemente atormentada pelos catálogos em que seres humanos se ‘aprisionam’ uns aos outros e jamais conformada com isso mesmo.

Desde sempre alguém tentou cercear ‘o outro’, enformá-lo em caixas, defini-lo de acordo com os seus padrões que, como diz a expressão são apenas e só os seus padrões, fruto também eles de uma individualidade que a determinada altura apenas teve o ‘poder’ de criar norma com o intuito disso mesmo: normalizar…

Cansada de me dizerem… como é que alguém como tu, pessoa inteligente e que gosta de livros, boa música, cinema, arte em geral, que cultiva amigos e amizades, consegue gostar dessa coisa que é o futebol, essa coisa irracional. Ao menos, se era para gostar dessa coisa menor é o desporto, gostavas de uma modalidade de jeito, uma modalidade decente… vá lá, sei lá, um rugby, um ténis, ou no máximo um basquetebol. O leque é tão abrangente e logo tinhas que ir gostar de futebol. Logo eu, que sempre pratiquei desporto e sou adepta de tantos. Mas, sim, para mim, o futebol é um desporto ‘maior’.

Esse desdém acicata, e é nesse momento que a irracionalidade desperta verdadeiramente, que se deixa de ser politicamente correto. Verdadeiramente o que desperta a irracionalidade é o princípio do julgamento… julgar ‘o outro’ é que é irracional.

Gostar de futebol é gostar de emoções, é estar vivo, tão vivo como quando se aprecia um bom livro, como quando se aprecia uma conversa com amigos. Catalogar ‘o outro’ porque gosta de futebol ou por qualquer outro motivo é não olhar para si. Quando julgamos os outros estamos a julgar-nos a nós próprios e a refletir nos outros as nossas falhas.

Deixemos os carimbos para os papéis. Os seres humanos não se enquadram, por definição, em catálogos nem em caixas. O que é bom e válido para um não o é necessariamente para outro.

Eu “vou em futebóis”, e em livros, e em copos e conversas com amigos, e em pés de dança, e em peças de teatro e exposições… Como eu, milhares dos que gritam golo ao meu lado também têm, certamente, outras paixões na vida e ainda bem que assim é, são seres humanos saudáveis e felizes.

A felicidade é o ensejo último do ser humano. Que cada um seja feliz por si e para si. Só assim teremos uma verdadeira Humanidade.

Foto estádio

Photo by Fernanda Palmeira

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Ah e tal esta coisa das redes sociais

Ah e tal esta coisa das redes sociais é uma grande treta!

Há os esquisitinhos, os que “ai eu nunca!” em tom de remoque, mas depois sabem tudo o que por lá se passa porque “cuscam” a partir da conta do vizinho do lado…

Há os convictos e indefectíveis para quem o Face é sagrado, o Insta é um espelho e as redes são os olhos do mundo… sim, porque tudo o que por lá se diz é verdade inquestionável.

E há os media, numa relação de amor-ódio para com quem lhes tira “audiências/tiragens”… de repente todos somos produtores de conteúdos… e por outro lado lhes dá inspiração, matéria e fundamento e justificação para algumas coisas…

O que é a primeira coisa que sai do bolso para “ajudar” quem caíu? A mão? Sim, mas com o telemóvel agarrado como se fosse uma extensão e a câmara já ligada…

Bom ou mau? É como tudo na vida… bom e mau…

Nas redes já se fizeram/desencearam revoluções, nas redes já se destruíram vidas ou já se incentivou a sua destruição.

Como em tudo, o difícil está em conseguir o equilíbrio, “c’est la vie”! Nem endeusar nem diabolizar. Já não conseguimos viver sem, mas às vezes é-nos difícil viver com.

Dá-nos um repente e decidimos “desaparecer” durante uns tempos e dizemos “ah e tal estou tão farta, estou cansada, estou desesperada” e dos 1.000 ‘amigos’ que estão no nosso cardápio lá aparecem uns 50, vá lá, com muito boa vontade, 100, que vêm a correr perguntar “o que se passa, estás bem, vais morrer” (se morreres avisa, mas desde que não seja em tempo de praia, ok).

Dá-nos mesmo uma coisa má, porque estamos fartos dos amores e ódios de estimação que se destilam, e desaparecemos mesmo durante um tempo sem dar cavaco e dos 1.000 ‘amigos’ nem 1 dá por isso… pronto, estou a ser injusta, dos 1.000 ‘amigos’ há 5 amigos que realmente se apercebem e te ligam ou mandam mensagem a questionar a tua ausência…

E depois há os distraídos que nem vão assim tanto à redes e nem se apercebem de quem está ou não ausente há quanto tempo.

Enfim… as redes não são verdade absoluta de nada… extensões apenas e só do que a cada um apetece, e como lhe apetece, partilhar com os diferentes ‘amigos’, os do universo internet/rede ou os do seu grupo ou grupos privados e/ou reais, e só assim devem ser vistas.

Nem boas nem más, as redes vieram para ficar e como tal nada com dar-lhes a importância que é apenas e só a que transparece da diversidade humana. Cada um vê com os seus ‘olhos’ o mundo que o rodeia, nada mais nada menos, do que faz nas redes.

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Photo by Dayne Topkin on Unsplash

om mani padme hum

o que procuramos? incessantemente procuramos paz, a paz interior, a bússola que nos guia para dentro de nós, para o crescimento interior…

om mani padme hum

da lama nasce a flor de lótus, a mais bela das flores

para que a paz floresça dentro de nós e homem e universo sejam um só

porque o mantra nos liga aos ancestrais e fecha a porta do sofrimento

hoje, por hoje, e a cada dia “caminho com coragem e compreensão e conheço o melhor caminho”

porque “o homem é aquilo que pensa” (Buddha)

flor de lotus

photo by Tj Holowaychuk on Unsplash

 

crónica de uma viagem ao Hades

Num primeiro impacto visual uma nuvem da cor do fogo, um denso capacete de fumo, quase palpável. Visibilidade a média distância quase nula. O cenário habitual de qualquer incêndio ativo. Uma experiência, uma vez mais, repetida.

Paramos para fotografar um foco ativo, logo ali, a poucos metros, e tomar algumas notas, com o alerta veemente de zona de risco e o pedido de curta permanência.

No caminho poucas são as árvores que sobreviveram ao fogo, há casas e barracos queimados, mas muitos resistiram de forma inexplicável e estão intactos no meio da destruição.

À medida que avançamos algo de diferente, a cada 5, 10 metros, um carro, um camião, uma alfaia agrícola, completamente queimados. Um verdadeiro cenário de catástrofe.

Placas toponímicas quase irreconhecíveis. Não fosse dar-se o caso de conhecer as localidades e não saberia onde estávamos. Chegamos à primeira aldeia e parece que o fogo resolveu dar tréguas à sua porta. Um carro completamente destruído quase se cola às casas intactas. As gentes estão na rua, ainda incrédulas.

Quando abrimos a porta do nosso carro o impacto do calor e, sobretudo, o ar denso e quase irrespirável, e o cheiro, o intenso cheiro a fumo que se entranha pelas narinas e se cola à pele, ao cabelo, à roupa, e que há-de perdurar muito para além do espaço. Colado à memória olfativa.

O olhar perde-se na destruição, instala-se um peso no peito, árvores, carros, histórias de mortes mesmo ao nosso lado, de alguém que ficou ali. Mostram-nos os locais onde alguém foi encontrado, no chão, no carro. O peso das histórias a gravar-se na nossa mente, no nosso coração, para sempre na nossa memória. Os rostos contraídos de quem nos fala, o semblante carregado.

E, no meio de tudo, e apesar de tudo, e, num rasgo de puro egoísmo, um sobressalto no meu coração ao ver um primo e depois outro. Sobreviventes, todos. E algum sentimento de culpa, um porquê o outro e não eu… um porquê outras famílias e não a minha. E a consciência de ter uma família fortemente implantada na região que passou incólume pela catástrofe.

Perdas materiais e animais, não há quem as não tenha. Desvalorizadas, todas, por cruel que possa ser, porque afinal, entre parentes e amigos se perdeu, para sempre, alguém.

Seguimos rumo aos sobreviventes, são essas as histórias que queremos ouvir. Gente resiliente que se há-de reerguer como fénix. É essa a grande diferença que sinto e vivencio ao acompanhar jornalistas de outras latitudes.

Prosseguimos por entre o ambiente espesso que nos rodeia com alma de jornalista, em busca do facto, recalcando as emoções. É por isso e para isso que lá estamos. É essa a frieza que nos é exigida. O distanciamento possível. Entre árvores queimadas, carros, casas, no verdadeiro inferno.

No caminho muitos rostos se cruzam com os nossos já sem curiosidade perante estranhos, afinal são, neste momento, mais os forasteiros jornalistas que os habitantes, numa proporção nunca vista. O atropelo entre pares, a visão necrófila, a devassa, é algo que não move a equipa em que me integro. Agradeço.

Já vivi esta história neste local e mais a sul, não com esta gravidade, única, espero irrepetível, mas já estive frente a frente com o fogo mais de uma vez, num medir de forças desigual, e também eu fugi, exatamente do mesmo modo que os que desta vez foram por ele cercados. Porquê eles e não eu será sempre algo para que não terei resposta.

 

O meu agradecimento vai inteiro para o Dagen Nyheter porque o “bicho” do jornalismo é imortal, porque ir à terra onde está o meu cordão umbilical neste momento era vital, porque saber/ver dos ‘meus’ era essencial.

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photos: Fernanda Palmeira

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às vezes há tempos assim… tempos de interregno…

não sabemos como, não sabemos porquê, por alma de quem… quando damos por isso o tempo passou por nós e nós não demos por ele passar.

são tempos de interregno… em que nos perdemos para lá do pensamento, em que ficamos perdidos no limbo à espera do nada, sem direção, sem sentido, só a ver a vida passar…

e sem nos apetecer participar da vida, sentados à espera que passe não sabemos bem o quê…

o torpor amolece-nos e flutuamos ao sabor do vazio…

às vezes há tempos assim…

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photo: Harry Sandhu – https://unsplash.com/@harryxsandhu

somos um

quão pequenos somos? de que tamanho é a nossa alma e o nosso coração?

“Infelizmente a maioria de nós quer diminuir os outros até à perceção que temos da nossa própria dimensão, e nós vemo-nos como terrivelmente pequenos e fracos. Quando recordamos a nossa interdependência, descobrimos ser incrivelmente grandes e fortes.” (Arcebispo Desmond Tutu, in ‘O Livro da Alegria’)

quão mais fortes ficamos quando vemos no outro um espelho? quando percebemos que podemos somar em vez de diminuir, que podemos multiplicar em vez de dividir…

saber que todos estamos aqui para crescer, para evoluir… importa dar a mão em vez de empurrar… só assim faz sentido, só assim somos humanos…

somos um… faces complementares do mesmo diamante!

só juntos podemos aspirar à perfeição e cultivar as qualidades que nos são inatas… alegria, bondade, compaixão, serenidade.

alegria e preocupação com o bem-estar do outro, só assim seremos verdadeiramente felizes e haverá lugar para o nosso bem-estar…

um…

diversidade

photo: RhondaK – https://unsplash.com/@rhondak